As camisas alternativas da história do São Paulo






De 1930 a 2012, o São Paulo teve apenas duas “terceiras camisas”, quatro camisas “de emergência”, uma homenagem excepcional e um suposto erro. A partir de 2013, entretanto, o clube já teve oito “terceiras camisas”. Esta é a história completa das camisas alternativas que o Tricolor já vestiu em campo.
Contra o Ceará, hoje, o São Paulo estreou não apenas Daniel Alves e Juanfran, mas também seu novo (e polêmico) terceiro uniforme. Camisas alternativas não são exatamente uma novidade na história do clube, mas eram muito mais raras até a década passada. O levantamento abaixo, feito com o inestimável auxílio do historiador Michael Serra, tentou listar todas as camisas diferentes da camisa 1 com que o Tricolor já jogou. É possível que exista ainda uma camisa alternativa usada em ao menos uma partida nos anos 1980, mas faltam registros para se poder garantir isso.

A primeira camisa alternativa de nossa história foi um improviso. Em agosto de 1930, o São Paulo enfrentaria a seleção dos Estados Unidos, apenas o 16.º jogo após nossa fundação. Os americanos voltavam de navio do Uruguai, após a primeira Copa do Mundo (em que terminaram num honroso terceiro lugar), e aproveitaram para disputar amistosos com o Santos, naquela cidade praiana, e com o Tricolor, na Chácara da Floresta. Possivelmente tinham consigo apenas uniformes brancos. Assim, o Tricolor optou por entrar em campo com o último uniforme da Associação Atlética das Palmeiras, um dos clubes que lhe deram origem, no início daquele ano. A vitória ficou com os são-paulinos, por 5 a 3. Friedenreich marcou três vezes.




Até maio de 1932, o São Paulo sempre entrou em campo com sua camisa branca, a não ser pelo amistoso com os americanos. Sim, mesmo quando o adversário também jogava de branco. Isso mudou na tarde de domingo, 29 de maio. “Os [são-paulinos] envergavam uma camiseta nova, com as cores do clube às riscas, o que nos lembrou o antigo uniforme do Fluminense”, observou O Estado de S. Paulo. Alguns apaixonados pessimistas, só por esse motivo, tiveram pensamentos tristes. Mas o uniforme, ao contrário, mais encorajou os rapazes, que deram em atacar com aquela combinação, quase impecável, de todos conhecida.”
O novo uniforme deu sorte, e o Tricolor saiu vitorioso: 4 a 0 sobre o Santos, também na Chácara da Floresta. Desde então, deixou de ser “alternativo” e passou a ser nosso segundo uniforme. Duas semanas depois, o novo uniforme, ainda sem o escudo, foi envergado novamente em um clássico, também vitorioso: 2 a 0 sobre o Corinthians, no Parque São Jorge. Embora seguisse sendo usado com alguma frequência, sempre que necessário, ele só ganharia o escudo mais de um ano depois, em nova goleada sobre o Santos: 4 a 1, em 9 de julho de 1933.



Em maio de 1940, o São Paulo disputou dois amistosos contra o Flamengo em três dias, no então recém-inaugurado Pacaembu. Para o segundo desses jogos, o Tricolor decidiu homenagear os Veteranos Paulistas de Futebol, entidade que reunia ex-jogadores para amistosos como o daquela semana, uma goleada por 7 a 0 sobre o Vigor. Assim, os são-paulinos jogariam com o uniforme dos Veteranos, uma camisa com golas vermelhas e listras verticais pretas e brancas, mas sem escudo. Segundo o Estadão de 16 de maio, era “uma justa homenagem àqueles que tão alto elevaram o nome esportivo do nosso estado”. Desta vez, o São Paulo saiu derrota: 2 a 0 para o Flamengo.
O uniforme ainda seria usado mais três vezes ao longo de 1940, agora com o escudo são-paulino. No ano seguinte, aparentemente ele chegou a substituir o uniforme 2, que não foi usado em nenhuma das partidas com registro fotográfico. Depois disso, foi aposentado, apesar de, segundo Serra, ter sido oficializado na Federação Paulista de Futebol como terceiro uniforme, informação que consta em uma ata do Conselho Deliberativo do clube, de 1942. Em 2010, a Reebok inspirou-se nesse uniforme para montar uma camisa alternativa. Apesar de o time todo ter entrado em campo com ela numa partida contra o Atlético Paranaense, apenas o goleiro Rogério Ceni a vestiria em campo: foram treze jogos com ela até março de 2011.





Assim como em 1930, o São Paulo teve “problemas logísticos” com seu uniforme durante uma excursão à Europa, em 1964. Na decisão do Torneio Amistoso de Florença, contra o Zenit de Leningrado, da União Soviética, que também jogava de branco, o Tricolor teve de jogar com as camisas roxas da Fiorentina. Elas deram sorte: 1 a 0 para o São Paulo, que ficou com a taça. Situações similares ocorreriam ainda em 1969 e em 1978. A segunda vez foi em outra decisão de torneio amistoso, desta vez o Troféu Colombino de 1969, disputado em Huelva, contra o Real Madrid. Com as camisas azuis do Recreativo Huelva, vitória são-paulina por 2 a 1.
A terceira foi em plena Libertadores: Palestino e São Paulo entraram no gramado do Estádio Nacional, de Santiago, vestindo camisas muito parecidas, já que a do clube chileno também tinha faixas horizontais. Depois de algum impasse, o Tricolor teve de trocar suas camisas, pois os chilenos estavam apoiados por regras internacionais. Sem os uniformes número 2, a solução encontrada foi atuar com uniformes laranjas emprestados pela Unión Española, que disputaria o jogo de fundo daquela rodada dupla, contra o Atlético Mineiro. A vitória tricolor por 1 a 0 veio graças ao gol de cabeça de Darío Pereyra, retratado na última foto acima. Curiosamente, a Unión Española seria justamente o próximo adversário são-paulino, quatro dias depois, também no Estádio Nacional.




Em 1966, o São Paulo usou mais um uniforme alternativo, com apenas três faixas verticais: preta, branca e vermelha — sim, nessa ordem. Segundo Paulo Planet Buarque contou ao Diário Popular, foi um presente do presidente interino, Manoel Raymundo Paes de Almeida. Depois que o clube mandou confeccionar mais de um jogo, pôde estreá-los contra o Comercial de Ribeirão Preto, no Morumbi: vitória por 3 a 0. O clube ainda vestiu a camisa alternativa em outras ocasiões daquele ano, inclusive nos quatro últimos jogos da temporada, mas aposentou-o definitivamente em seguida.




Em 1984, o São Paulo foi à Itália para um amistoso contra a Roma e para uma visita ao papa João Paulo II, partes de um esforço de marketing que o então presidente Carlos Miguel Aidar tentava implantar. Talvez a camisa usado naquela partida também tenha sido parte dessa estratégia de marketing, mas o fato é que ela revoltou parte dos membros do Conselho Deliberativo, que cogitavam uma interpelação formal ao presidente. Alguns conselheiros chegaram até a falar em impeachment de Aidar.
O presidente, entretanto, jogou a culpa na Le Coq Sportif, fabricante dos uniformes: “[Isso] não poderia ser evitado, [porque o fabricante] enviou os uniformes já empacotados, [e só em Roma os dirigentes] constataram o engano.” Ele reforçou que “em hipótese alguma” o São Paulo deixaria de jogar com suas camisas tradicionais. Segundo o presidente do Conselho Deliberativo, Homero Bellintani, a Le Coq teria se confundido com uma encomenda feita pelo clube para testar um novo uniforme. O assunto acabaria sumindo rapidamente das páginas dos jornais.
Em janeiro de 2000, o São Paulo organizou o Torneio Constantino Cury no Morumbi, aberto com uma partida contra o Avaí. Nela, o Tricolor entrou em campo com um uniforme inspirado no do Club Athletico Paulistano, outro dos clubes que o formaram, em 1930. Todo branco, ele foi usado apenas no primeiro tempo da vitória por 3 a 2.



A primeira “terceira camisa” desde 1966 foi usada apenas em 2013, em uma única partida. Como o uniforme alternativo não estava previsto no estatuto, o Conselho Deliberativo precisou liberar a novidade.A diretoria conseguiu impedir qualquer vazamento do uniforme até a hora do jogo, quando ele passou a ser promovido com a hashtag #VermelhoACorDaRaça. O Estadão resumiu o que foi a vitória por 1 a 0 sobre o Penapolense, pelas quartas de final do Campeonato Paulista: “O São Paulo jogou com um uniforme todo vermelho e deixou seus torcedores da mesma cor — de raiva — em alguns momentos, mas, mesmo sem usar sua tradicional camisa tricolor e sem jogar bem, avançou à semifinal do Paulistão.”




A Penalty, fornecedora do material esportivo são-paulino desde o início daquele ano, ainda criou outros dois modelos, usados em duas outras partidas da temporada. Ambos pertenciam à coleção retrô “Raízes”, cujo mote para o São Paulo era uma homenagem a Leônidas da Silva. Elas foram usadas durante uma semana em que o Tricolor fez quatro partidas em apenas oito dias. A camisa branca, em uma derrota para o Criciúma por 2 a 1 em pleno Morumbi. Como a maré estava brava naquela época, a camisa listrada também sofreu um revés: 2 a 0 para o Coritiba, fora de casa.




O ano de 2015 trouxe a primeira “terceira camisa” da Under Armour, que passou a fabricar os uniformes tricolores naquela temporada. A camisa grená foi estreada num frustrante empate contra o Vasco, no Morumbi: 2 a 2. O mote dessa camisa era uma homenagem aos 25 anos de Rogério Ceni no clube, tanto é que a camisa dele, na cor preto grafite, tinha um número 25 no peito. Um mês depois, o time todo jogou com essa camisa, estreada na vitória por 3 a 2 sobre o Figueirense, uma virada conquistada nos acréscimos.




O mesmo fornecedor criou os terceiros uniformes estrados em 2016 e 2017. O primeiro deles foi uma camisa amarela, usada apenas na derrota por 1 a 0 para o Botafogo, no Morumbi. O segundo deles foi uma camisa preta com a silhueta do escudo decorando o tecido e gola grená. Ele foi estreado em outro 1 a 0 no Morumbi, desta vez a nosso favor. É aquele jogo em que o Sidão fez uma grande defesa no último minuto para preservar uma importante vitória.




Não era uma “terceira camisa”, mas na última rodada do Campeonato Brasileiro de 2016 o São Paulo enfrentou o Santa Cruz com uma camisa preta em homenagem à Chapecoense, que havia sofrido um acidente aéreo na Colômbia duas semanas antes, com 71 mortos, incluindo a quase totalidade de sua delegação. Nas costas dos são-paulinos, os nomes eram os de jogadores da Chape. O uniforme do time pernambucano também era uma homenagem aos catarinenses. No fim, goleada tricolor por 5 a 0.




Em 2018, talvez por causa da mudança de fornecedor no meio do ano — a Under Armour cedeu lugar para a Adidas — , não houve “terceira camisa”. A primeira do novo fornecedor surgiu apenas em agosto de 2019. Apesar de a Adidas já estar fornecendo material esportivo ao Tricolor desde junho do ano anterior, a “terceira camisa” lançada era uma reciclagem do modelo usado pelo Besiktas, da Turquia. Houve um óbvio reaproveitamento de design, porém a empresa insistiu em um mote de “homenagem aos jogadores uruguaios que já defenderam o São Paulo”.
Mas a maior polêmica foi a utilização da camisa justamente no jogo que marcou as estreias de Daniel Alves e Juanfran pelo São Paulo. Com essas duas estreias, o jogo teve repercussão mundial, e nas imagens que circularam o mundo aparece um uniforme que não tem nada a ver com a memória dos estrangeiros que conhecem o São Paulo. Afinal, o Campeonato Brasileiro não tem uma grande exposição no mundo. A diretoria do São Paulo aceitou contratualmente dar total autonomia à Adidas sobre a escolha das datas em que o terceiro uniforme, e a empresa não aceitou adiar a estreia do uniforme.